sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ficção Científica com “F” Maiúsculo

 

Esse filme que vou comentar é até covardia. Sem sombra de dúvidas: o filme de ficção cientìfica mais importante da história do cinema e um dos melhores. Estou falando, é claro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick.

Um aviso importante: ESSE POST CONTÉM SPOILERS!

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2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey) – 1968

Inglaterra/EUA

Diretor: Stanley Kubrick

Elenco

Keir Dullea (Dr. Dave Bowman)

Gary Lockwood (Dr. Frnak Poole)

William Sylvester (Dr. Heywood R. Floyd)

Douglas Rain (HAL 9000 – voz)

 

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0062622/

 

Sinopse:

O alvorecer da humanidade. Nossos ancestrais aprendem a usar ferramentas para caçar e se defender. Um misterioso monólito negro está presente. Salto no tempo e em 2001, o monólito reaparece na lua e uma missão é enviada a Júpiter para verificar sinais enviados da Lua para aquele planeta, aparentemente pelo monólito. Durante a missão, o computador de bordo “enlouquece” e tenta eliminar a tripulação. Depois de conseguir sobreviver, cientista entra em uma viagem para dimensões desconhecidas.

Por que gostar desse filme?

O filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, além de ser um clássico da ficção científica, e na minha opinião o filme mais importante desse gênero, é um dos melhores filmes, de um dos melhores diretores de todos os tempos: Stanley Kubrick. Esse filme entra fácil em qualquer lista de melhores filmes de todos os tempos, com algumas das cenas mais antológicas e conhecidas da história do cinema.

Apesar de ser um filme de ficção científica, ele foge dos clichês do gênero. Não tem perseguições de naves, chuvas de meteoritos, raios laser, etc. O ritmo do filme é lento e está mais preocupado em apresentar diversas questões interessantes do que fazer aventura.

O filme apresenta inicialmente um bando de primatas que são rechaçados por outro bando, na disputa por um pouco de água e que se esconde de predadores. Numa manhã, são surpreendidos pela presença do um misterioso monólito negro, surgido do nada.

Um dos componentes do bando descobre o uso de um osso como arma de caça e de defesa. O bando agora domina a água, afugenta o outro bando, caça animais maiores e se defende dos seus predadores.

Em uma elipse de tempo, saltamos para 2001, quando a humanidade viaja para a Lua normalmente. Por sinal, essa elipse de tempo é mostrada com uma daquelas cenas antológicas.

Um cientista está indo para Lua investigar o que foi encontrado por lá. Ao chegar, vemos que foi desenterrado um monólito como aquele dos nossos ancestrais. Descobre-se que ele envia sinais para o planeta Júpiter, então é enviada uma missão espacial para descobrir o que acontece.

Na viagem, a tripulação é mantida em animação suspensa, exceto dois astronautas (os doutores Dave Bowman e Frank Poole). Toda a nave é controlada pela última geração de computadores com inteligência artificial: o computador HAL 9000.

Durante a viagem os astronautas percebem que o computador “falhou” em um diagnóstico de defeito. Preocupados pensam em desligá-lo. O computador reage e “enlouquece”, matando todos os astronautas em hibernação e o Dr. Poole.

Ele tenta matar Bowman também, mas o cientísta consegue desligar o computador (outra cena incrível). Como a nave não tem mais como se manter, Bowman ingressa em um módulo e parte para o espaço, onde começa uma viagem, ao que parece para uma dimensão diferente da nossa.

Ao chegar ao destino, Bowman se defronta com um quarto reservado para ele, onde, após algumas passagens de tempo (ou não teria passado tempo algum ???), ele se encontra à beira da morte. Nesse momento, novamente o monólito aparece e surge uma nova criatura (que percebemos ter as feições de Bowman), o “bebê estrela” (outra cena para a história do cinema).

É novamente a aurora da humanidade, mas de uma humanidade diferente.

Obra de Arte na acepção da palavra e filme enigma. Obra aberta a múltiplas interpretações, com inúmeros símbolos e detalhes escondidos, como se fossem pistas para a compreensão do enigma.

O diretor mesmo afirmava que esse filme foi feito para não apresentar conclusões ou explicações, mas sim para que cada pessoa que o assista tenha a sua interpretação. Um filme para atingir o sub-consciente do espectador.

Um aspecto interessante a observar é que a história original (por sinal, filmada pelo diretor) era sobre a ameaça que o planeta Terra estaria sofrendo em 2001. Um cinturão de armas nucleares na órbita do planeta, tensão entre as duas grandes potências (devemos lembrar que o filme foi feito no auge da Guerra Fria), guerra iminente. No final, o homem evolui para uma forma superior de vida e salva o planeta, trazendo a paz. Após as filmagens, durante a montagem, Kubrick começou a cortar cenas (principalmente aquelas com diálogos) chegando ao resultado final que podemos ver no filme. O resultado é espetacular e confirma que o cinema é a arte da montagem.

Pode-se perceber diferentes questões levantadas pelo filme.

Despertar do Homem

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Uma das questões tratadas pelo filme é a evolução da raça humana. No início é apresentada a pré-história e o salto evolutivo que acontece quando dominamos uma ferramenta, que permite aos nossos ancestrais se defenderem de outros bandos e de animais selvagens e, ao mesmo tempo, caçar animais maiores. Isso leva a uma evolução intelectual mais rápida.

Em um salto temporal, o homem agora já domina as viagens espaciais e possui tecnologia muito avançada. Na viagem para Júpiter, novamente o homem evolui para uma nova forma de vida. Algo superior, agora somos seres em nível cósmico, nos desprendemos da nossa Terra.

O filme mostra que em todos os momentos, nos quais um salto evolutivo acontece, estamos sendo acompanhados pelo misterioso monólito negro, supostamente vindo do espaço.

Seria esse monólito apenas um sentinela que aguarda o momento do salto evolutivo para mandar essa informação para algum lugar? Ou esse monólito seria o causador desse salto, aquilo que inspira, ou até mesmo gera esse salto na evolução? Seria uma representação do criador? Por que os sinais são enviados para Júpiter?

Isso fica por conta da interpretação pessoal de cada um que assistir ao filme.

Homem x Máquina

O Homem criou as ferramentas. Desde o osso usado por nossos ancestrais, ele fez com que elas evoluíssem para máquinas cada vez mais complexas e ficamos cada vez mais dependentes dessa nossa criação. No filme o controle que o computador da nave tem sobre as vidas dos tripulantes representa essa idéia da nossa dependência.

O pior é que basta olharmos para a nossa volta. O filme foi profético em 1968 !!

A evolução das máquinas acontece até o momento em que o homem teve que se confrontar com uma máquina que não aceitaria mais o controle do ser humano.

O embate ocorre na nave que ruma para Júpiter. O computador HAL 9000, a mais avançada máquina a usar a inteligência artificial “erra”. Torna-se mais humana e não aceita que seja desligada por causa desse erro.

Mais humanizada do que nunca, ela “enlouquece” mata quase todos os astronautas. Mas, em uma cena sublime tem sua memória desligada e avisa ao seu algoz que está com medo! Medo de perder a memória, em suma, medo de morrer.

Pode-se também dizer que a aproximação de Júpiter levou HAL, com sua inteligência tão avançada a perceber que estaria prestes a ocorrer o salto evolutivo do homem. Talvez o computador soubesse o motivo do monólito e estivesse tentando impedir que os humanos chegassem até o planeta. A velha idéia de que as máquinas vão, um dia, perceber que os humanos são dispensáveis para o seu propósito e que podem viver muito bem sem eles.

Mas um aspecto deve ser notado na forma como as coisas decorrem ao longo da missão. Os humanos da nave quase não demonstram emoções, são frios, calmos, praticamente nem mudam a entonação da voz, como o próprio computador. A humanidade estaria tomando o caminho contrário das máquinas. Os papéis começariam a ser invertidos e somente evoluirmos para uma forma diferente de vida, poderia nos tirar desse caminho de desumanização.

É interessante como as máquinas no filme, principalmente as naves especiais e os módulos de vôo são antropomórficos. O módulo que chega à Lua especialmente se parece com uma cabeça humana, com olhos brilhantes! O módulo da nave da missão até Júpiter que ampara o astronauta morto nos braços e o deixa para o descanso eterno no espaço.

Pode-se perceber também que a nave da missão até Júpiter (a Discovery) tem a forma de um espermatozóide pronto para fecundar o óvulo (o planeta Júpiter) e gerar a “nova raça”.

Alguma polêmica sempre faz bem

Estendendo um pouco a idéia da evolução apresentada pelo filme poderíamos entender que o filma apresenta uma forma de conciliação entre as duas correntes relacionadas à criação do homem: o Evolucionismo de Darwin e o Criacionismo da tradição Judaico-Cristã.

E o elemento conciliador seria o monólito negro. Vamos pegar do ponto onde o filme começa, pois nem me atrevo a discutir a coerência disso para a criação do universo e tudo mais.

Os primatas vêm evoluindo até o ponto onde estão preparados para o salto evolutivo, mas falta o empurrão para que isso aconteça. Então o monólito negro, que poderia ser associado a Deus, surge e dá esse empurrão, ou seja, ocorre a evolução biológica natural, como descreve Darwin, mas com o aval de Deus, que está presente para “abençoar” esse momento de evolução.

Sei que é uma teoria meio maluca e, provavelmente, nem sei se o autor pensou em algo perto disso quando fez ou montou o filme, mas acho bastante interessante, porque é coerente com o que é apresentado.

Mesmo a questão do sinal para Júpiter é coerente, pois talvez fosse necessário. Alguns textos cunhavam a frase que “Deus vive na lua de Júpiter”, quando do lançamento da continuação desse filme (“2010, O Ano que Fizemos Contato”, por sinal um filme muito inferior a esse).

Pequenos Grandes Detalhes

Não bastassem essas interpretações possíveis, e todas as outras que são formuladas desde que o filme foi lançado, Kubrick ainda colocou vários simbolismos em algumas cenas. Aí vão algumas delas:

Na foto abaixo, o sol e a lua, que para o Zoroastrismo (antiga religião persa) significava o embate entre o bem e o mal. Daí a utilização do tema Assim Falava Zaratustra no filme. Talvez uma das músicas mais conhecidas do cinema, mas que a maioria não tem idéia de qual é o seu nome.

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Segundo consta, o próprio nome do computador é um enigma criado para a época. Se pegarmos a próxima letra do alfabeto, para cada letra do nome do computador HAL, teremos ... IBM. Pois na época a gigante da computação era o grande símbolo da computação para o mundo.

E se prestarmos atenção existem muitos mais.

Não bastasse a qualidade do roteiro, da direção, da fotografia, da música, etc., o cuidado técnico e científico é primoroso também: o som que não se propaga no espaço, a nave que gira para manter a gravidade, as pessoas que podem ficar em qualquer posição na nave, pois no espaço não existe “lado de cima” ou “lado de baixo”, os monitores das naves com telas planas (que só viriam a se tornar uma realidade há alguns anos atrás e o filme foi rodado em 1968!), o atraso nas transmissões de longuíssima distância, etc. Além disso a dependência crescente do homem em relação à máquina, talvez uma profecia meio sombria...

Com certeza um filme para ver e rever, pois sempre existem pequenos detalhes que não foram percebidos até o momento. E é exatamente isso que torna esse filme um dos melhores filmes de todos os tempos.

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Cenas Inesquecíveis

Aqui estão apenas algumas cenas inesquecíveis desse filme, porque se fosse listar todas, a lista seria imensa:

  • Na pré-história o primata utiliza a sua nova “ferramenta”, um osso de animal, e a atira para o alto. Num efeito de montagem, o osso se “transforma” em uma nave na órbita da Terra. De ferramenta da pré-histórica até ferramenta do século XXI, em uma cena que é considerada a maior e mais bem realizada elipse temporal da história do cinema. Incrível.
  • O balé das naves espaciais ao som do Danúbio Azul. O movimento lento, tanto das naves como das pessoas a bordo, é algo ainda inesquecível. São cenas plasticamente belíssimas, além de beirarem a perfeição em termos da Física.
  • Todos os encontros com o monólito negro. As cenas transpiram mistério e suspense, com um crescendo da música de fundo quase ensurdecedor. Aquele bloco de pedra é um mistério completo, nunca sabemos o que vai acontecer, sempre estamos aguardando que algo assustador aconteça. Mas não acontece. Ou melhor ainda, acontece algo extraordinário com a raça humana, mas não é necessária nenhuma pirotecnia para mostrar isso. Coisa de gênio mesmo.
  • O computador HAL 9000 sendo desligado e dizendo que está com medo, que a sua mente está indo embora (é uma cena de arrepiar, volte e assista várias vezes, ela merece). O computador vai “morrendo” lentamente, a “mente” do computador começa a regredir, até que ele canta uma canção para o seu algoz. Como conseguir que uma máquina soe tão “humana” na hora de sua “morte”.

O site abaixo é extremamente interessante. Ele apresenta uma interpretação bastante interessante sobre as questões levantadas pelo filme. É uma animação em Flash e vale a pena ser assistida (possui versão em português).

http://www.kubrick2001.com/

Espero ter animado àqueles que não tenham assistido ainda esse fime a assistir e àqueles que já assistiram, espero ter deixado aquele gostinho de “quero dar mais uma olhada nesse filme”. Relaxem e aproveitem o que melhor o cinema pode oferecer.

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